Em três frentes simultâneas, formam-se contratos, fábricas e marcas globais que mudam, em silêncio, a forma como o mundo nos compra.
Por Felipe Fogaça
No início deste ano, a Suécia se tornou o sétimo país europeu a comprar o cargueiro militar C-390 Millennium, da Embraer. Antes vieram Portugal, Hungria, República Tcheca, Eslováquia, Holanda e Áustria — todos membros da OTAN. Dez anos atrás, um contrato desse porte teria sido capa por uma semana. Hoje passa em segunda página, e isso já diz alguma coisa sobre o que está mudando.
Visto de Frankfurt, o Brasil aparece com nitidez crescente em três frentes simultâneas. A primeira é defesa e aeroespacial de alta tecnologia: além do C-390, a Eve Air Mobility — subsidiária da Embraer — fez em dezembro o primeiro voo do seu eVTOL em escala real, já capitalizada em US$ 1,2 bilhão e em processo de certificação na ANAC, FAA e EASA.
A segunda frente é a transição energética como nova vantagem comparativa. A matriz brasileira majoritariamente renovável transforma o custo do hidrogênio verde no Nordeste em vantagem industrial direta. A União Europeia anunciou a construção de uma usina de hidrogênio verde e amônia no Piauí; o Rio Grande do Norte recebe o projeto Morro Pintado, parceria luso-brasileira; e o programa H2Uppp, do governo alemão, manteve aberta até março uma chamada internacional voltada a projetos brasileiros.
A terceira é uma política industrial estruturada. A Nova Indústria Brasil já mobilizou cerca de R$ 643 bilhões pelo plano Mais Produção, atendendo 67,5 mil pequenas e médias indústrias com ganho médio de 28% em produtividade, segundo o MDIC. O Brasil Semicon, criado pela Lei 14.968/2024, destina R$ 21 bilhões à cadeia de semicondutores até 2026; em janeiro, a USP inaugurou a PocketFab, primeira microfábrica de chips do país, focada em chips de potência — exatamente onde a Europa precisa diversificar fora da China. E em maio, a brasileira Enter tornou-se o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina, avaliada em US$ 1,2 bilhão.
O cenário externo está oferecendo uma janela rara. O acordo Mercosul–União Europeia entrou em vigor provisório em 1º de maio. O chanceler alemão Friedrich Merz veio à Hannover Messe em abril prometer dobrar o comércio bilateral com o Brasil e indicou 200 bilhões de euros em automação industrial, minerais críticos e energias renováveis. Pela primeira vez em décadas, o que a Europa pede ao Brasil não é mais apenas soja ou minério bruto.
Nada disso garante o resultado. Política industrial precisa de continuidade. Decretos energéticos precisam sair do papel. Mas o sinal estrutural é diferente do que se via na década passada: hoje os caminhos existem em escala. O Brasil dos balanços de 2026 ainda é majoritariamente exportador de commodities. O Brasil dos contratos de 2030 pode ser outro. A diferença entre os dois cenários não está nos recursos. Está na execução.
Felipe Fogaça é engenheiro e mestre em finanças e desenvolvimento de negócios. Vive em Frankfurt desde 2019, onde fundou a NexoExport, operação que conecta empresas brasileiras inovadoras ao mercado alemão e europeu. Escreve sobre comércio internacional, geopolítica aplicada a negócios e tecnologias emergentes.

