Bactéria resistente a antibióticos detectada em itens da Ypê

A Pseudomonas aeruginosa, uma bactéria altamente resistente a antibióticos, foi detectada em vários produtos fabricados pela Ypê, conforme declarações do infectologista Celso Ferreira Ramos Filho em entrevista.

“Ela pode provocar doenças de maneira inesperada. Essa bactéria tende a afetar pacientes internados em hospitais, especialmente aqueles utilizando traqueostomia, ventiladores mecânicos ou cateteres venosos”, acrescentou o especialista.

O médico explicou que, por ser uma bactéria ambiental, utensílios comuns como esponjas para lavar pratos ou panos de chão podem estar contaminados, visto que a Pseudomonas aeruginosa sobrevive na água.

Essa bactéria é classificada como de “vida livre”, diferentemente de outras como a Escherichia coli, que reside no intestino humano, ou o meningococo, encontrado nas fossas nasais. “Em nosso ambiente, não há como escapar dos micro-organismos. Existem outras bactérias de vida livre, como a Burkholderia, que também têm potencial para causar doenças”, comentou Celso Ferreira.

Celso Ferreira é professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Nacional de Medicina (ANM).

No dia 7 de setembro, a Anvisa anunciou uma resolução que determina o recall de produtos como detergentes líquidos e desinfetantes da Ypê com lotes terminando em 1, proibindo seu uso pelos consumidores.

Características

Segundo Ferreira, a presença dessa bactéria pode resultar em diversas complicações para indivíduos imunocomprometidos, incluindo infecções urinárias e respiratórias em pessoas com doenças pulmonares crônicas ou aquelas que utilizam cateteres venosos. “A inserção de um tubo na traqueia pode facilitar a entrada da bactéria. Pacientes em tratamento quimioterápico também estão mais vulneráveis devido ao comprometimento da saúde”, detalhou.

Pessoas imunocomprometidas

A médica Raiane Cardoso Chamon, professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressaltou à Agência Brasil que os riscos aumentam consideravelmente quando pessoas com sistema imunológico debilitado entram em contato com essa bactéria.

“Ela tem capacidade de provocar infecções em indivíduos com imunidade reduzida”.

Em casos de fibrose cística, por exemplo, a Pseudomonas é frequentemente responsável por pneumonia e seu tratamento apresenta grande dificuldade. Raiane ainda alertou que pessoas saudáveis não estão totalmente imunes aos efeitos dessa bactéria. “Dependendo da cepa da Pseudomonas, até mesmo indivíduos saudáveis podem contrair infecções como otite aquática ao nadar em ambientes recreativos”, enfatizou Chamon.

A profissional destacou que o maior risco ocorre quando a bactéria se estabelece em ambientes hospitalares, sendo frequentemente introduzida por funcionários ou visitantes das instituições. Ela também comentou sobre a pressão seletiva dos antibióticos nesse tipo de ambiente, o que contribui para o aumento das resistências bacterianas.

Chamon observou que essa situação pode levar a infecções graves em pacientes com sondas urinárias ou ventilação mecânica. O tratamento torna-se mais complicado devido à gravidade das infecções e à resistência aumentada da bactéria.

“Esse é o cenário mais preocupante”, afirmou.

Contaminação

A médica acredita que a contaminação pela Pseudomonas aeruginosa pode ter ocorrido durante o processo produtivo dos itens. “Provavelmente não houve controle microbiológico adequado durante a fabricação dos produtos. É possível que algum reagente utilizado na produção estivesse contaminado e permitisse que a bactéria proliferasse em ambientes úmidos”, disse ela.

“Sem controle microbiológico nas fases necessárias da produção, pode ter ocorrido um crescimento descontrolado de uma cepa específica adaptada a ambientes com detergentes.”

A médica Chamon destacou ainda que existem limites aceitáveis para contaminação microbiana nos produtos; ultrapassar esses limites representa um risco à saúde dos consumidores, especialmente para aqueles com sistema imunológico comprometido.

Comunicado

No dia 7 de setembro, a Ypê divulgou um comunicado informando que está colaborando ativamente com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e tomando as providências necessárias com total prioridade e transparência.

A empresa também afirmou estar realizando análises técnicas e avaliações complementares com testes independentes apresentados à Anvisa para garantir qualidade e conformidade regulatória dos seus produtos.

A indústria comprometeu-se ainda a implementar imediatamente quaisquer melhorias recomendadas pela Anvisa no seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória desenvolvido desde dezembro de 2025.

A Agência Brasil entrou em contato com a Ypê nesta sexta-feira (8), mas até o momento não obteve resposta da assessoria de imprensa da empresa antes da publicação desta matéria.

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